Delta encontra delta

Investing in Brazil

Delta encontra delta

Spread the love

Como a expertise hídrica holandesa está transformando as cidades do Brasil

eyesonbrasil

O Brasil detém cerca de 12% de toda a água doce do mundo. Ainda assim, sua maior cidade, São Paulo, tem alternado nos últimos anos entre o racionamento de água provocado pela seca e enchentes repentinas catastróficas — uma contradição que transformou o país em um dos campos de prova mais ativos do mundo para uma exportação bem tipicamente holandesa: saber como conviver com a água, em vez de combatê-la às cegas.

O setor hídrico brasileiro enfrenta pressão crescente por causa das mudanças climáticas, da rápida urbanização e de lacunas de infraestrutura de longa data. Apesar da abundância de recursos hídricos, secas prolongadas, chuvas extremas e o aumento da demanda vêm sobrecarregando cada vez mais os sistemas de água urbanos. Nessa lacuna entrou uma onda de empresas de tecnologia, consultorias de engenharia e startups empreendedoras holandesas — algumas com séculos de história, vindas dos pôlderes da Zelândia, outras fundadas há poucos anos em Delft ou Leeuwarden — todas vendendo uma versão da mesma experiência conquistada a duras penas: como um país que fica abaixo do nível do mar aprendeu a gerenciar a água de forma precisa, digital e contínua.

Caso 1: Ensinando os canos de São Paulo a “falar”

São Paulo depende de um extenso sistema de água potável operado pela Sabesp, e a cidade enfrenta perdas significativas de água devido a redes antigas e complexas, com a variabilidade climática e o aumento da demanda pressionando ainda mais as operações diárias.

Entra em cena a Flowless, uma empresa holandesa-palestina especializada em monitoramento de redes com inteligência artificial. Em vez de enviar equipes para caçar vazamentos fisicamente ao longo de milhares de quilômetros de tubulação, o monitoramento orientado por dados e IA da Flowless permitiu melhorias operacionais direcionadas para a Sabesp e ajudou a reduzir as perdas de água em cerca de 1.000 metros cúbicos por mês — água que, de outra forma, desapareceria no solo antes de chegar a qualquer torneira. É um número pequeno diante de uma concessionária gigantesca, mas ilustra o modelo: o software holandês não substitui a infraestrutura brasileira, ele torna a infraestrutura existente mais inteligente.

A Flowless não trabalha sozinha. Ao lado dela, vários outros fornecedores holandeses fazem parte dessa transição, oferecendo ferramentas digitais que ajudam as concessionárias a gerenciar suas redes com mais eficácia. Entre eles está a Aquasuite, desenvolvida pela Haskoning, que gera uma visão geral de todo o sistema das operações de água potável e esgoto. A plataforma utiliza dados já disponíveis nas redes e modelos preditivos para antecipar mudanças na demanda, ajustar automaticamente os processos de bombeamento e tratamento, e estabilizar o desempenho do sistema — ajudando os operadores a manter níveis de serviço consistentes, gerenciar o consumo de energia com mais eficiência e detectar desvios precocemente.

E há também a especialista em detecção de vazamentos HULO, que se concentra em identificar vazamentos localizados por meio de análise de dados de alta frequência e tecnologia de gêmeos digitais, usando uma abordagem estatística para rastrear perdas sutis ou emergentes que podem não aparecer em uma inspeção convencional. Entre essas três empresas, a rede de água de São Paulo está silenciosamente se tornando um dos sistemas de água urbanos mais amplamente instrumentados do hemisfério sul — não por meio de um único megaprojeto, mas de uma pilha em camadas de ferramentas holandesas de monitoramento, modelagem e previsão, instaladas sobre os canos brasileiros já existentes.

Caso 2: A Arcadis e quinze anos de aposta no Brasil

Se as startups representam a onda mais recente, a Arcadis representa as raízes mais profundas. A gigante de engenharia, sediada em Arnhem, está presente no Brasil há mais de uma década, e sua trajetória conta sua própria história sobre como a relação amadureceu — de pura construção de infraestrutura para uma gestão de ativos inteligente e orientada por dados.

Em 2010, o braço brasileiro da Arcadis, a Arcadis Logos, integrou um consórcio com uma empresa local para o Projeto de Integração do Rio São Francisco, um contrato de gestão hídrica de US$ 42 milhões com o Ministério da Integração Nacional, voltado a reduzir a escassez crônica de água no nordeste brasileiro por meio de 720 quilômetros de canais, aquedutos, túneis e reservatórios, bombeando até 127 metros cúbicos de água por segundo do Rio São Francisco para bacias áridas. No mesmo ano, a empresa também venceu um contrato separado de US$ 54 milhões com a Sabesp para a expansão da infraestrutura de esgoto na região metropolitana de São Paulo.

Em 2014, a relação havia se ampliado ainda mais: a Arcadis Logos assinou mais dois contratos com a Sabesp — um no valor de US$ 12,8 milhões para gerenciamento de projetos de sistemas de água e esgoto em uma área de 5.115 km², atendendo 16 milhões de pessoas, e outro no valor de US$ 39 milhões para o programa de redução de perdas de água da Sabesp, uma iniciativa de US$ 440 milhões que buscava reduzir a taxa de perda física de água da concessionária de 26% para cerca de 13% até 2019.

Avançando para abril de 2025, a Arcadis continua presente — só que agora o foco recai claramente sobre ferramentas digitais. A Arcadis foi selecionada pela Sabesp para dois grandes contratos estratégicos em São Paulo, combinando ferramentas digitais de gestão de ativos com profunda experiência em tratamento de água para apoiar a expansão da maior estação de tratamento de esgoto do Brasil e supervisionar o planejamento do Programa de Universalização do Abastecimento de Água e Esgotamento Sanitário da Sabesp — juntos, garantindo infraestrutura hídrica para mais de 28 milhões de pessoas em 375 municípios. O próprio CEO da Arcadis descreveu isso como prova de conceito da fórmula que o setor hídrico holandês vem aperfeiçoando há anos: reunir expertise nas áreas de resiliência e inteligência para aprimorar a infraestrutura e proteger comunidades em grande escala.

Caso 3: Um pavilhão laranja no meio de São Paulo

Vitórias individuais de empresas são uma coisa. Mas o Brasil também se tornou um ponto fixo no mapa institucional da diplomacia holandesa da água — a articulação deliberada, apoiada pelo governo, que faz a Holanda ter uma presença muito maior do que seu tamanho sugeriria nesse setor em todo o mundo.

Todos os anos, a Netherlands Water Partnership (NWP), em parceria com o Consulado-Geral dos Países Baixos em São Paulo, monta o que chama de “Netherlands Lounge” na Fenasan — o maior evento técnico-comercial de saneamento ambiental da América Latina, organizado pela AESabesp, a Associação dos Engenheiros da Sabesp. A edição de 2025, realizada em outubro, reuniu cerca de 20 mil participantes — engenheiros, químicos, biólogos, técnicos, pesquisadores e lideranças empresariais que atuam em saneamento ambiental, tanto no setor público quanto no privado.

É mais do que um estande de feira. Oito organizações holandesas compartilharam o estande conjunto naquele ano, beneficiando-se de logística compartilhada, marca coletiva e suporte dedicado de matchmaking, com muitas parcerias agora avançando rumo a projetos-piloto, licitações conjuntas e contratos de serviço de longo prazo — novos contatos gerados por meio do matchmaking facilitado pela NWP, pelo Consulado-Geral dos Países Baixos em São Paulo e pelo Netherlands Business Support Office em Porto Alegre. O cônsul-geral holandês resumiu a lógica sem rodeios nos materiais de boas-vindas da missão: ao conectar a tecnologia holandesa com a ambição brasileira, os dois países podem entregar juntos soluções que sirvam de exemplo global, seja na construção de cidades resilientes, na garantia de água limpa para todos, ou no uso sustentável da água na indústria.

Por que o Brasil, por que agora

O padrão em todos esses casos é consistente, e isso não é acaso. A expertise hídrica holandesa historicamente se dirige para onde o estresse climático encontra sistemas de água urbanos grandes e complexos — de Wuhan a São Paulo, passando por Miami e Nova Orleans, cidades costeiras e ribeirinhas ao redor do mundo têm contratado empresas holandesas para combater o crescente risco hídrico, aproveitando um setor doméstico forjado por séculos de vida abaixo do nível do mar. O Brasil atende a todos os critérios que o tornam atraente: uma concessionária nacional de referência (a Sabesp) operando em uma escala que poucos países conseguem igualar, uma variabilidade climática real e crescente e — de forma crucial — apetite político e comercial para modernizar em vez de simplesmente reconstruir.

O que mudou ao longo de quinze anos foi o tipo de expertise exportada. A Arcadis de 2010 derramava concreto e construía canais; a Arcadis de 2025 implanta ferramentas digitais de gestão de ativos ao lado dessa mesma força técnica. Flowless, HULO e Aquasuite dispensam totalmente o concreto e vendem pura inteligência — sensores, algoritmos e gêmeos digitais, construídos sobre uma infraestrutura que já existe. Entre as empresas de engenharia consolidadas e as startups mais novas de monitoramento com IA, o empreendedorismo holandês no Brasil hoje abrange todo o espectro, da megainfraestrutura ao software como serviço — uma aposta de que a próxima fase da segurança hídrica nas cidades brasileiras será vencida menos pelo diâmetro dos canos do que pelos dados.

eyesonbrasil

 

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *