Os robôs estão ordenhando
Como a Lely automatiza silenciosamente a agricultura latino-americana — e o Brasil lidera essa transformação
eyesonbrasil
Amsterdã, 28 de setembro de 2026 – Há dez anos, um pecuarista de Paraí, no Rio Grande do Sul, voltou de uma viagem à Alemanha entusiasmado com uma máquina que tinha visto por lá: um robô que ordenhava vacas sem que uma única mão humana tocasse no processo. A família achou que ele estava brincando. Hoje, essa mesma tecnologia — uma invenção holandesa chamada Lely Astronaut — se espalhou por mais de 400 propriedades brasileiras, transformou o Brasil na sede de toda a operação da Lely na América Latina, e ajudou a colocar duas fazendas leiteiras do Paraná no topo de um ranking global de eficiência que reúne 25 mil fazendas e 50 mil robôs em todo o mundo.

Essa é a história da expansão da Lely na América Latina ao longo de uma década, em miniatura: um início lento e cético, seguido por uma transformação rápida — e ainda em aceleração — na forma como os produtores da região trabalham.
A máquina que começou tudo
O Lely Astronaut, lançado comercialmente pela primeira vez na Holanda em 1992, continua sendo o produto de destaque da empresa: um robô de ordenha totalmente automatizado que usa uma câmera 3D e um braço guiado a laser para localizar os tetos da vaca, limpar e estimular o úbere, encaixar as teteiras e registrar continuamente dados — volume de leite, teor de gordura e proteína, temperatura e condutividade — a cada ordenha, para cada vaca, sem que ninguém precise estar na sala de ordenha.

O que torna o sistema realmente transformador não é apenas a automação em si, mas o que ela faz com o ritmo da vida na fazenda. Em um sistema convencional, as vacas são ordenhadas em um horário fixo definido pelo produtor, geralmente duas vezes ao dia. No sistema Astronaut, são as próprias vacas que decidem quando querem ser ordenhadas, caminhando até o robô a qualquer hora do dia ou da noite, atraídas pelas rações fornecidas durante o processo. Produtores que fizeram a mudança relatam consistentemente as mesmas coisas: vacas mais calmas, menos casos de claudicação porque os animais não precisam mais esperar em fila e — algo crucial em uma região onde encontrar mão de obra confiável no campo tem se tornado cada vez mais difícil — uma dependência bem menor de funcionários contratados.
Além do robô de ordenha: um kit de ferramentas completo
A expansão da Lely na América Latina não parou no robô de ordenha. A empresa vem introduzindo gradualmente o restante de sua linha de automação, cada equipamento voltado a uma parte diferente da rotina diária em uma fazenda leiteira:

- Lely Juno, um robô autônomo empurrador de ração que percorre o cocho em intervalos regulares, aproximando a silagem do alcance do gado, para que os animais não precisem se esticar nem esperar por um funcionário com trator para fazer isso.
- Lely Discovery Collector, um robô aspirador de esterco que mantém o piso do galpão limpo automaticamente, reduzindo doenças de casco e melhorando a higiene sem raspagem manual.
- Lely Vector, um sistema de alimentação automatizado que mistura e distribui rações frescas ao longo do dia e da noite, com base nas necessidades reais de cada grupo de vacas, em vez de uma ou duas grandes alimentações diárias.
- Lely Luna, uma escova rotativa que permite que os animais se cuidem sozinhos sempre que quiserem — o que parece trivial, até você descobrir que isso reduz mensuravelmente o estresse e melhora a circulação e a saúde do pelo.
Por trás de tudo isso está o software de gestão Horizon, da Lely, que reúne os dados de cada robô da fazenda em um único painel — transformando o que antes era a intuição e a caminhada diária de inspeção do produtor em um fluxo contínuo de informações prontas para embasar decisões. Como resumiu um executivo da Lely responsável pelo mercado sul-americano, o verdadeiro produto não é o equipamento em si; é o algoritmo por trás da plataforma que transforma os dados brutos dos robôs em decisões que o produtor pode colocar em prática.
Por que o Brasil assumiu a liderança
A Lely entrou na América Latina em 2013, abrindo seu primeiro escritório regional no estado do Paraná — uma região com forte presença histórica da imigração holandesa e, não por coincidência, uma das bacias leiteiras mais desenvolvidas do Brasil. O primeiro robô Astronaut do país entrou em operação no ano seguinte, em Castro, no Paraná.

Mais de uma década depois, os números confirmam a centralidade do país em todo o projeto regional. O Brasil já soma mais de 400 robôs de ordenha Lely instalados, concentrados majoritariamente em propriedades familiares com um ou dois equipamentos, cada robô atendendo, em média, cerca de 60 vacas. Em setembro de 2019, a Lely marcou esse momento com a inauguração de uma sede latino-americana dedicada em Carambeí, no Paraná — uma instalação construída com um investimento de cerca de R$ 10 milhões, que centraliza as operações no Brasil, na Argentina, no Chile e no Uruguai, e ainda fornece equipamentos para o mercado mais recente da empresa, no México. Executivos da companhia descreveram a próxima década como um período de consolidação do crescimento voltado especificamente para o Brasil e o mercado sul-americano mais amplo, com planos de, eventualmente, explorar a montagem local das máquinas em vez de importar cada unidade da Holanda.
A evidência mais clara da liderança brasileira, no entanto, talvez seja qualitativa, e não apenas quantitativa: no ranking global de eficiência da Lely de 2025 — compilado a partir de dados de mais de 25 mil fazendas e 50 mil robôs em operação no mundo todo — as duas primeiras posições em produção média diária de leite por vaca foram para fazendas do Paraná, lideradas pela Fazenda Melkstad, com média de 54,5 quilos de leite por vaca ao dia. Para um país cujo setor leiteiro é frequentemente descrito como fragmentado e tecnologicamente atrasado em relação a produtores mais industrializados, esse resultado é uma reviravolta notável.
O caminho diferente da Argentina: menos fazendas, apostas maiores

Se o Brasil representa amplitude — centenas de instalações familiares em pequena escala —, a Argentina representa um padrão de adoção diferente: menos fazendas, mas muitas vezes equipadas com vários robôs de uma só vez. A primeira instalação argentina da Lely aconteceu em 2018 na “El Rancho”, uma propriedade baseada em pastagem em Tandil, administrada pela família Baudrix, que começou com seis robôs e adicionou mais dois em poucos anos. No fim de 2022, a Lely sozinha tinha 129 robôs em funcionamento em 23 fazendas leiteiras argentinas — quase metade de todo o mercado nacional de sistemas de ordenha automatizada, que, somando todas as marcas (Lely, DeLaval, GEA e outras), totalizava 267 robôs vendidos, dos quais cerca de 125 já instalados e funcionando em 56 propriedades. Analistas do setor projetavam que o total nacional, somando todos os fabricantes, chegaria perto de 300 robôs até o fim de 2023, concentrados fortemente nas províncias de Buenos Aires, Córdoba e Santa Fe — o coração leiteiro tradicional da Argentina.
O contraste conta sua própria história sobre os dois mercados: a adoção brasileira se espalhou de forma ampla e rasa, alcançando muitos pequenos produtores com um ou dois robôs por vez, enquanto a adoção argentina foi mais restrita, porém mais profunda, com operações maiores e mais intensivas em capital apostando, desde o início, em galpões com múltiplos robôs.
Uruguai e Chile: os parceiros menores e constantes

Completando a presença da Lely na América Latina em quatro países estão o Uruguai e o Chile, mercados menores, mas ativos. O Lely Center Cariplal, no Uruguai, opera quatro robôs Astronaut em uma fazenda que migrou de uma sala de ordenha convencional, relatando melhora na saúde do úbere e um período de adaptação surpreendentemente rápido, à medida que as vacas aprenderam a nova rotina. Nos quatro países juntos, a Lely opera hoje por meio de uma rede de doze Lely Centers dedicados, que fornecem as vendas, a instalação e o suporte técnico 24 horas dos quais a pecuária leiteira automatizada depende — afinal, um robô de ordenha que quebra às duas da manhã sem técnico disponível não é um ganho de eficiência, é uma crise.
O panorama mais amplo
O que está acontecendo nessas fazendas representa mais do que uma simples atualização de equipamentos. A ordenha robótica está remodelando a economia e a demografia subjacentes da pecuária leiteira latino-americana: reduz a dependência de uma mão de obra rural cada vez mais escassa e cara, gera um volume de dados sobre saúde animal e produtividade que simplesmente não existia nos sistemas manuais e — talvez o mais significativo para uma região há muito associada à agricultura de commodities e margens mais baixas — está começando a produzir líderes globais genuínos em eficiência leiteira, em vez de seguidores.
A ascensão do Brasil como o maior mercado latino-americano da Lely e, ao mesmo tempo, detentor das melhores posições no ranking global de eficiência da empresa sugere que essa transformação já deixou para trás a fase experimental. A tecnologia da qual uma família cética de pecuaristas brasileiros zombava há uma década agora supera, segundo os próprios números da empresa, operações leiteiras em mercados tradicionalmente muito mais avançados — um lembrete de que os maiores ganhos da automação às vezes aparecem justamente nos lugares mais distantes de onde a tecnologia foi inventada.










