132 anos de negócios, política, cultura e poder. Em uma só mesa no Rio de Janeiro. Colombo.
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Rio de Janeiro, 1 de setembro de 2026 — Quem entra na Rua Gonçalves Dias, no centro do Rio de Janeiro, e empurra a pesada porta da Confeitaria Colombo não está simplesmente entrando numa confeitaria, mas num pedaço de história viva.
Desde a inauguração, em 17 de setembro de 1894, pelos imigrantes portugueses Joaquim Borges de Meireles e Manuel José Lebrão, esse estabelecimento tem sido a janela pela qual se pode acompanhar o desenvolvimento econômico e social do Rio — há 132 anos, até hoje.
A casa nasceu na euforia da jovem República brasileira, quando o café era o motor da riqueza nacional e o Rio queria se recriar à imagem da Europa. Essa imagem ambiciosa ainda é visível no interior: enormes espelhos de cristal, trazidos de navio de Antuérpia, emoldurados por frisos de jacarandá; balcões de mármore italiano; móveis entalhados à mão pelo artesão Antônio Borsoi.
Entre 1912 e 1918, o interior ganhou ainda toques art nouveau, e em 1922 foi acrescentado um segundo andar — um salão de chá coroado por um teto de vitral, hoje parte do restaurante Cristóvão. Cada pedra e cada espelho contam a mesma história: uma cidade comercial decidida a mostrar sua riqueza ao mundo.

Mas o verdadeiro capital da Colombo nunca foi apenas o doce. Era a própria mesa, onde comerciantes, políticos, escritores e artistas se encontravam informalmente, longe dos salões oficiais do poder. O poeta Olavo Bilac frequentava o local, assim como a compositora Chiquinha Gonzaga e o futuro maestro Villa-Lobos.
Os escritores Machado de Assis e Lima Barreto, cronistas do Rio de sua época, mexiam o café ali enquanto comentavam a cidade que mudava do lado de fora das janelas. O jurista e abolicionista Rui Barbosa também expunha ali suas ideias. A Colombo chegou a ser chamada, em tom de brincadeira, de “uma filial da Academia Brasileira de Letras” — um lugar onde a autoridade cultural pesava tanto quanto a política.
Essa densidade de poder acabou atraindo também chefes de Estado. Os presidentes Getúlio Vargas e, mais tarde, Juscelino Kubitschek foram vistos ali, ao lado de visitantes estrangeiros como o rei Alberto I da Bélgica e a rainha Elizabeth II.
Nas mesmas mesas de mármore onde comerciantes fechavam contratos, forjavam-se também alianças políticas e mantinham-se relações internacionais — negócios, poder e cultura, literalmente em uma só mesa.
O século XX nem sempre foi generoso: a transferência da capital para Brasília em 1960 e décadas de decadência no centro histórico apagaram temporariamente o brilho do lugar. Uma filial em Copacabana, aberta em 1944, manteve o nome vivo até 2003. Ainda assim, a Colombo sobreviveu, justamente por nunca ter sido apenas um restaurante, mas uma instituição na qual o Rio se reconhecia.
Hoje, 132 anos depois de sua inauguração, a Confeitaria Colombo é um patrimônio tombado e um ponto turístico, mas a lógica de sempre permanece intacta: quem quer fazer negócios, provar cultura ou se aproximar do poder no Rio ainda hoje se senta a uma mesa — de preferência sob os espelhos vindos de Antuérpia.
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