Dois Séculos Depois de Tiradentes
O Debate Inacabado do Brasil Consigo Mesmo
eyesonbrasil
Amsterdã, 6 de setembro de 2026 – Todo dia 7 de setembro, o Brasil para para lembrar um homem que nunca chegou a ver o país que ajudou a imaginar. Joaquim José da Silva Xavier — Tiradentes — foi enforcado e esquartejado em 1792 por conspirar contra o domínio colonial português, com partes de seu corpo expostas ao longo do caminho para Vila Rica como advertência a quem sonhasse com um Brasil livre. A República que ele nunca viu viria depois a torná-lo herói nacional, transformar a data de sua execução em feriado nacional e erguer monumentos à ideia de que a liberdade vale a pena morrer por ela.
Mais de dois séculos depois, essa mesma semana encontra o mais alto tribunal do Brasil consumido por um tipo de confronto muito diferente — um que nada tem a ver com mosquetes ou forcas, e tudo a ver com o trabalho mais lento e confuso de responsabilizar os próprios guardiões de uma democracia.

Um Tribunal Voltado Contra Si Mesmo
No início de setembro de 2026, uma cisão extraordinária se abriu dentro do Supremo Tribunal Federal (STF) entre dois de seus ministros em exercício: Alexandre de Moraes, a figura mais proeminente e mais polarizadora da Corte, e André Mendonça, indicado por Bolsonaro e ex-ministro da Justiça, que vem se posicionando cada vez mais como um contrapeso dentro do tribunal.
O estopim imediato não foi uma decisão sobre liberdade de expressão, mas um escândalo financeiro: o colapso do Banco Master, instituição controlada por Daniel Vorcaro e liquidada pelo Banco Central no final de 2025 em meio a acusações de fraude em grande escala. Mendonça, como relator dos inquéritos relacionados, derrubou o sigilo de parte da investigação — medida que expôs comunicações entre Vorcaro e o próprio Moraes, além de outras autoridades públicas. Moraes respondeu pedindo ao presidente da Corte, Edson Fachin, a abertura de uma investigação formal contra Mendonça, acusando-o de extrapolar suas funções, conduzir de forma irregular tratativas de delação premiada e direcionar a apuração contra um colega magistrado. Fachin, desde então, retirou as petições cruzadas do âmbito do inquérito das “fake news” e as levou diretamente à Presidência da Corte, dando a ambos os ministros um prazo de dias para se manifestar.

É, segundo praticamente todos os relatos, um espetáculo sem precedentes: dois ministros em exercício do mais alto tribunal do Brasil acusando-se formalmente de abuso de poder, em plena disputa pública, justamente quando o país se aproxima das eleições do próximo ano.
O Que se Acusa o Banco Master de Ter Feito
Para entender como um banco de porte médio pôde acabar desestabilizando o Supremo Tribunal Federal, ajuda entender a escala e os mecanismos do que, segundo investigadores, aconteceu.
O Banco Master, controlado pelo empresário Daniel Vorcaro, construiu seu crescimento vendendo Certificados de Depósito Bancário (CDBs) com taxas de juros muito acima do que seus concorrentes conseguiam sustentar — chegando, segundo relatos, a 130% do CDI. Promotores alegam que isso configurava uma estrutura semelhante a uma pirâmide financeira: o dinheiro captado de novos depositantes era direcionado a um fundo de crédito do qual o próprio Master era, na prática, o único investidor, e de lá supostamente desviado para empresas ligadas à família e a sócios de Vorcaro, em vez dos ativos produtivos que os depositantes acreditavam sustentar seus rendimentos. Separadamente, investigadores afirmam que o banco emitiu mais de 250 mil empréstimos consignados “fantasmas” — descontados automaticamente de salários e aposentadorias — sem evidência de que os tomadores os tivessem autorizado, agravando prejuízos ligados ao INSS.
Quando o Banco Central decidiu liquidar o Banco Master em novembro de 2025, o fez de forma extrajudicial para evitar uma corrida bancária, e o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) já reportou um prejuízo estimado em R$ 41 bilhões — descrito como o maior de sua história. Dias depois, Vorcaro foi preso em um aeroporto de São Paulo quando, segundo a polícia, tentava embarcar em um voo particular para deixar o país; ele nega irregularidades e afirma estar colaborando com as investigações. A polícia já descreveu a operação como envolvendo não apenas engenharia financeira, mas também um suposto núcleo de corrupção institucional voltado a funcionários do Banco Central, uma rede de lavagem de dinheiro com supostos vínculos ao crime organizado, e um braço de inteligência acusado de monitorar antecipadamente movimentações policiais.
O alcance do escândalo sobre a elite política e jurídica do país foi o que transformou um caso de fraude bancária em uma crise institucional de grandes proporções. Reportagens da imprensa — algumas contestadas — associaram pagamentos ou vínculos comerciais do Master ou de seus associados a um ex-ministro da Fazenda, a um ex-ministro do Supremo e a um escritório de advocacia administrado pela esposa do ministro Moraes, entre outros; o ministro Dias Toffoli, que inicialmente relatava o caso antes de Mendonça assumir, foi alvo de questionamentos após aceitar um voo fretado custeado por um advogado ligado ao banco. Nada disso configura, por si só, irregularidade comprovada por parte de qualquer um dos citados — são acusações sob investigação ativa, várias delas contestadas pelos próprios envolvidos —, mas juntas explicam por que boa parte da classe política de Brasília acompanha tão de perto o embate entre Mendonça e Moraes: os documentos no centro da disputa são os mesmos que poderiam implicar figuras muito além dos dois ministros.

Por Que Ressoa Como uma História de Liberdade
A razão pela qual essa briga interna se associou tão rapidamente à linguagem da “liberdade de expressão e da justiça” é que Moraes chega a este momento já carregando essa reputação — para o bem ou para o mal, dependendo de quem se pergunta.
Nos últimos anos, Moraes se tornou o rosto da postura agressiva do STF contra a desinformação e os movimentos antidemocráticos: determinou a suspensão de plataformas como X e Rumble, liderou a apuração contra o ex-presidente Jair Bolsonaro e seus aliados por suposta trama golpista, e recebeu elogios de apoiadores que o veem como o responsável por impedir que a democracia brasileira ruísse após 2022. Também recebeu duras críticas — de conservadores brasileiros, de Elon Musk, de membros do Congresso dos Estados Unidos e, por fim, do próprio Departamento do Tesouro americano, que o sancionou no ano passado por aquilo que chamou de perseguições politizadas e supressão da liberdade de expressão. Para seus críticos, é um ministro que redesenhou os limites do próprio poder em nome da defesa da democracia. Para seus defensores, é a razão pela qual esse poder foi contido.
Mendonça, por sua vez, tem sido frequentemente lido — tanto por aliados quanto por opositores — como a voz institucional mais disposta a resistir a essa concentração de poder dentro da própria Corte. Se a forma como conduziu os autos do Banco Master representa uma fiscalização legítima ou um golpe politicamente conveniente contra um rival é, até o momento, exatamente o que o próprio STF ainda precisa decidir.
O Debate Mais Profundo Que o Brasil Segue Tendo
Retirando-se os detalhes específicos sobre registros telefônicos e acordos de delação de Vorcaro, o que resta é uma pergunta que o Brasil vem fazendo sob diferentes formas desde que Tiradentes subiu ao cadafalso: quem tem o direito de definir os limites do poder, e quem vigia os vigilantes?
Tiradentes morreu resistindo a uma coroa que não respondia a ninguém dentro do Brasil. Duzentos anos depois, o debate não é sobre um monarca estrangeiro, mas sobre os limites adequados de um tribunal não eleito que muitos brasileiros creditam por ter salvado sua democracia — e que outros acusam de ter ultrapassado limites ao fazê-lo. As duas leituras podem ser sinceramente sustentadas. Ambas têm evidências reais por trás. Essa tensão não é sinal de que a democracia brasileira esteja fracassando; é, se muito, sinal de que suas instituições ainda são capazes de ser questionadas, até mesmo de dentro.
Esse pode ser o legado mais honesto do movimento de independência que o Brasil celebra a cada 7 de setembro: não uma liberdade acabada, conquistada de uma vez e preservada para sempre, mas um debate contínuo, por vezes feio, sobre como o poder deve ser controlado — travado neste ano não nas ruas de Vila Rica, mas nas petições e sessões públicas do mais alto tribunal do país.
Este relato reflete a cobertura disponível no início de setembro de 2026 sobre uma disputa institucional acelerada e contestada. As investigações subjacentes seguem em andamento, e as posições de ambos os ministros podem mudar à medida que o STF avança no caso.










